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segunda-feira, 11 de julho de 2011

ser simplesmente povo





Para o Professor João Medina, o “Zé Povinho” é “como uma sinopse da própria mentalidade do povo que o engendrou e nele, através dum (duplo) diminutivo tão revelador, se tornou nosso símbolo, totémico retomado por inúmeros cartoonistas ao longo da monarquia constitucional, da I República e, após a longa vigência da censura ditatorial, ressurrecto após o 25 de Abril, ainda que nos custe aceitar como nosso retrato verídico essa imagem deprimente e incomodamente labrega que nos espreita do fundo do nosso espelho colectivo, aquele rosto bronco de pascácio rural, de campónio mal vestido, barba rala, colete e chapéu preto de rústico, calças de fazenda ruim, mãos nos bolsos, riso alvar, espécie de resignado Sancho Pança sem um cavaleiro da Triste Figuras que o quixotize e lhe comunique um Ideal superior.” Foi nestes termos que o Professor João Medina caracterizou o “Zé Povinho” que no define na conferência com o título “Rafael Bordalo Pinheiro, Criador do Zé Povinho”, no âmbito da exposição que se encontra patente no Museu Bernardino Machado, em Vila Nova de Famalicão, dedicada à vida e à obra do caricaturista português.
Na sua “incursão transcendente”, propôs o Professor João Medina (numa sessão bastante concorrida de público) a explicação, a partir do momento em que a apareceu, o mito do “Zé Povinho” e do seu gesto simbólico numa perspectiva da antropologia social. Tais símbolos, numa linguagem gestual, são símbolos contextualizados psicologicamente, sociologicamente e historicamente. Símbolos históricos, digamos, com uma carga psicológica e sociológica perante um determinado momento social configurado historicamente. Sempre ao lado da história existiram os ditos “parvos” e os “idiotas”, os quais através de parvoíces revelam as verdades: é o caso do bobo medieval, do parvo vicentino ou o nosso “Zé Povinho”, que através de uma linguagem gestual e, neste caso, obscena, promove o estado de espírito e de sítio socialmente revelado. Aliás, o único gesto obsceno do “Zé Povinho” é o manguito, linguagem simbólica tipicamente portuguesa, sendo este o seu gesto mágico, servindo o mesmo gesto para quebrar algo nefasto, o gesto da dissuasão, interpretando-o o Professor João Medina numa perspectiva de edificação sexual masculina, apesar de possuir um mecanismo psicológico complexo que poderá ter várias interpretações. É o gesto do “Ora Toma!” Diz o “Zé Povinho” a Paiva Couceiro: “Ai querias a Monarquia? Ora Toma!” O “Zé Povinho” surgiu pelo lápis de Bordalo Pinheiro na “Lanterna Mágica” em 12 de Junho de 1875. Neste desenho, o que a simbologia caricatural carrega é, precisamente, o problema do fisco, o “Zé Povinho” vítima dos impostos. Por seu turno, o de 1887 é a caricatura face aos políticos e uma vez mais o fisco; o de 1899 é o “Zé Povinho” do desespero, desesperado face ao poder governamental, enquanto que o de 1910 é o da ilusão e da esperança. Citando Ramalho Ortigão, diz-nos o Professor João Medina que o “Zé Povinho” só poderá deixar de ser simplesmente “Zé Povinho”, quando passar a ser simplesmente povo, representando a verdadeira Democracia.
Em 1880 surge uma dialéctica estranha em Portugal, entre o “Camões” dos republicanos e o “Zé Povinho” de Bordalo Pinheiro: sem em “Camões” temos o emblema da Pátria, o totem por excelência literária e histórico-cultural do País, com o “Zé Povinho” deparamo-nos com o País Real. Camões é a transcendência (um Camões que já desde Almeida Garrett o que ria fazer a figura, a voz e o rosto da portugalidade, reatar o próprio feito para ser recordado pela geração futura, isto em 1825, numa altura em que já tinha visto o quadro, em Paris, de Domingos António Sequeira, entretanto desaparecido, e ouvido a música camoneana de Domingos Bom Tempo, renascendo a ideia com a regeneração, pretendendo salvaguardar o tempo da memória, com a inauguração da estátua em 1867, em Lisboa, de Vítor Bastos), o mito da Pátria feita palavra duradoura e eterna; por outro lado, temos o “Zé Povinho”, que é o português real, autêntico, o resignado, a vítima que não faz mal a ninguém, mas que é espezinhado, carregando as “espigas” e as “albardas” governamentais, representando tudo aquilo que ninguém quer, sem utopias, revoltando-se de vez em quando numa explosão de descontentamento. Está simplesmente há espera 136 anos para deixar de ser simplesmente “Zé Povinho” para passar a ser simplesmente povo.

sábado, 2 de julho de 2011

o zé povinho e joão medina



No âmbito da exposição que se encontra patente ao público no Museu Bernardino Machado, em Vila Nova de Famalicão, até 28 de Agosto, e que se chama Vida e Obra de Bordalo Pinheiro, organizada pelo Museu Bordalo Pinheiro, de Lisboa, e cedida a título de empréstimo, a Câmara Municipal de V. N. de Famalicão e o Museu Bernardino Machado convidaram o Professor João Medina para proferir a comunicação Rafael Bordalo Pinheiro, inventor do mito nacional, Zé Povinho, estereótipo luso, a qual se realizará no próximo dia 8 de Julho, pelas 21h30, no Museu famalicense. Professor catedrático jubilado de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, João Medina nasceu em Moçambique (1939), licenciou-se em Filosofia na Universidade de Lisboa (1966) e doutorou-se em Sociologia na Universidade de Estrasburgo (1970), tendo ensinado, de 1970 a 1974, na Universidade de Aix-en-Provence (França). Após a revolução portuguesa de 1974, regressou ao seu país, foi Director-Geral no Ministério da Comunicação Social (1975-1977), regressando depois ao ensino universitário. Jubilado em 2008. Ensinou ainda nas Universidades de Colónia (Alemanha), Pisa (Itália), USP (São Paulo, Brasil), Johns Hopkins University e Brown University (Estados Unidos) e fez conferências nos Estados Unidos da América do Norte, Espanha, Brasil (Universidades de Brasília, USP, Unicamp, Araraquara, Assis, etc.), Alemanha (Bona, Rostock, Francoforte e Colónia), Itália, França, Moçambique (Universidade Eduardo Mondlane), Israel, etc. Foi director da Revista da Faculdade de Letras de Lisboa (1993-1997), dirigindo desde 2002 a revista Clio. Dirigiu, de 2002 a 2005, o Centro de História da Universidade de Lisboa.
Colaborou como cronista no Diário de Lisboa (1968 em diante), Diário Popular (desde 1975), Diário de Notícias (a partir de 1974), na revista Seara Nova (1962-74), sendo, actualmente, colunista no Jornal de Letras. É autor de uma extensa obra distribuída pela historiografia, pelo ensaio literário e pelo romance. Dirigiu uma História de Portugal (15 vols, 1994; reed. 1998), tendo publicado ainda Salazar e os Fascistas (1979), Morte e Transfiguração de Sidónio Pais(1994), Eça e a Geração de 70 (Lisboa, 1980), Oh! a República!...(1990), As Conferências do Casino e o Socialismo em Portugal (1984), A Ilha está cheia de Vozes (romance, Lisboa, 1978), Reler Eça (Lisboa, 2002), Salazar, Hitler e Franco (Lisboa, 2000), Ulisses o Europeu (Lisboa, 2000), Memórias do Gato que ri (romance, Lisboa, 2002), Dois Exilados alemães (Cascais, 2003), Zé Povinho sem Utopia (Cascais, 2004), Ortega y Gasset no Exílio português (Lisboa, 2004), Auschwitz e Moscovo (Lisboa, 2006), Portuguesismo(s)(Lisboa, 2006), Náufragos do Mar da Palha (romance, 2006), , O “Presidente-Rei” Sidónio Pais (Lisboa, 2007), Caricatura em Portugal (Lisboa, 2008), etc.
Recorde-se que o Professor João Medina já colaborou com o Museu Bernardino Machado no catálogo Caricaturas Bernardino Machado e com o texto A Caricatura Política em Portugal: brevíssima sinopse histórica, em 2007.








sábado, 18 de junho de 2011

maria veleda, a vermelha feminista


“Pobres éramos, pobres ficámos e pobres somos, mas nas nossas almas arde sempre a mesma chama sacrossanta que nos iluminava quando gritámos pela primeira vez: Viva a República! Porque acima da Morte que me espera, está o ideal que me norteia. Sim. Viva a República.”

Maria Veleda






Apresentada pelo Professor Norberto Cunha, coordenador científico do Museu Bernardino Machado, a Professora Natividade Monteiro proferiu a sua conferência no IV Ciclo “As Mulheres e a I República”, com o título “Maria Veleda (1871-1955: feminista, republicana, pedagoga e livre-pensadora”.














Considerando inicialmente que Maria Veleda (pseudónimo de Maria Carolina Frederico Crispem) desde muito cedo se dedicou a causas políticas e sociais, que incomodava os poderes instituídos (eclesiásticos e políticos) – aliás, o seu artigo “A Propósito”, publicado no jornal “A Vanguarda” em 9 de Fevereiro de 1908, a seguir ao regicídio, que esgotou duas edições do mesmo jornal, valeu a Maria Veleda um processo-crime por abuso de liberdade de imprensa, valendo-lhe as suas correligionárias da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, e testemunhando a seu favor personalidades como António José de Almeida, João Chagas, Manuel de Arriaga ou Ana de castro Osório, entre outras –, que não se assustava com ameaças, não concordou com o voto restrito, pretendendo o voto para todas as mulheres. Considerava igualmente, por exemplo, que o anti-clericalismo e o anti-jesuitismo deveria ser discutido na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, situação que nunca agradou, por exemplo, a Ana de Castro Osório.





A Professora Natividade Monteiro e o Professor Norberto Cunha, coordenador científico do Museu Bernardino Machado, na apresentação da conferencista.







Filha da classe média algarvia, o pai, João Diogo Frederico Crispim, desempenhou cargos de relevo no município de Faro e foi director da Sociedade Teatral da mesma cidade, enquanto que a mãe, Carlota Perpétua da Cruz Crispim, pertencia à burguesia proprietária local. Desta forma, seria influenciada Maria Veleda pelo teatro, sonhando desde sempre com a pretensão de escrever peças de teatro com personagens femininas, participando, aos sete anos de idade, no Teatro Lethes, na peça “Lenço Branco”. Começa a colaborar, a partir dos dezanove anos, na imprensa algarvia e alentejana, caso dos jornais “O Distrito de Faro”, “Pequeno em Tudo”, “O Almanaque Braz de Alportel”, “O Repórter”, “O Algarve”, “O Alentejo, “A Tarde”, “O Cruzeiro do Sul, etc. O que então escrevia era crónicas literárias, folhetins, poesia, contos, crónicas e artigos, nos quais defendia já uma educação e uma pedagogia feminista contra as superstições e o analfabetismo. Conheceu Cândido Guerreiro, do qual teria um filho, assumindo-se mãe solteira, não aceitando o convite de casamento, na medida em que considerava tal convite apenas para a satisfação social: um casamento, na perspectiva de Maria Veleda, devia basear-se no amor e confiança incondicionais e não no sentimento de compaixão ou de meras convenções sociais; e um filho não justificava um casamento a qualquer preço.





A Professora Natividade Monteiro a proferir a sua conferência



Colocada como professora no Alentejo, em 1905 desloca-se para Lisboa e em 1906 torna-se professora auxiliar no Centro Republicano Afonso Costa. Converte-se aos ideias republicanos e inicia a sua colaboração em jornais como “A Vanguarda”, “ Século”, ou “O Mundo”, conhecendo republicanos como Magalhães Lima, Alexandre Braga, França Borges, entre outros. O que defende nos seus textos é uma educação racional influenciada pela educação nova, uma educação integral, laica, defende a conciliação das artes e da ciência para a formação cívica, assim como igualmente uma educação física. Em 1907, no mesmo centro, realiza cursos nocturnos para complementar a instrução, através de conferências e no Centro Escolar José de Almeida cria cursos à hora da missa, considerando que estes mesmos cursos seriam a igreja cívica para as mulheres, assim como também para os homens, exercerem os seus direitos e deveres cívicos. No Centro Republicano Botto Machado pertenceu à direcção do mesmo centro, tendo sido a primeira mulher a representar tal cargo. Será através de Botto Machado que se tornará uma brilhante oradora. Entre 1906 a 1911 escreve no jornal “A Vanguarda” sobre educação, política, ou de como se fez livre-pensadora, e efectua a propaganda republicana. Em 1907, na homenagem nacional que então se presta a Bernardino Machado, Maria Veleda está presente na comissão de homenagem. Com o regicídio, considerou então Maria Veleda no célebre artigo que esgotou duas edições do jornal “A Vanguarda” que o “Rei provocou o seu próprio desfecho” e, termina, dizendo que “morreu um Rei, antes ele que um homem!” O texto agradou aos republicanos que então lhe prestaram uma homenagem. Em Abril de 1908 pertenceu à Comissão organizadora do I Congresso Nacional do Livre-Pensamento, com a presença de republicanos, socialistas e anarquistas, e, para além das questões sociais, reivindicou o amor-livre. No jornal “República, neste mesmo ano, realizou um plebiscito às mulheres portuguesas, para que estas votassem no republicano que mais defendiam os seus interesses: quem então ganhou foi António José de Almeida, para surpresa de Maria Veleda, já que considerava Bernardino Machado e Magalhães Lima como os republicanos que mais defendiam os interessas das mulheres. Ironia do destino, em plena República, António José de Almeida vetava o voto universal feminino e considerava Maria Veleda como a mais vermelha das feministas, pela sua coerência de pensamento e pela sua visão das realidades sociais. Em 1909, participa na manifestação anti-clerical promovida pela Junta Liberal em Lisboa, estando presentes cerca de 300 mulheres.




Com a implantação da República, as mulheres defendem a renovação do código civil, o divórcio e o direito de voto. Alguns republicanos mostraram-se favoráveis ao voto universal feminino, caso de Tomás da Fonseca, ou Magalhães Lima. Do outro lado da barricada, António José de Almeida. Este grupo considerava que as mulheres eram influenciáveis e poderiam sê-lo pelos eclesiásticos. Surgem duas posições: a de Maria Veleda e a de Ana de Castro Osório: a primeira defendia o voto para todas as mulheres e lutar pela igualdade era lutar contra todas as formas de aristocracia; por seu turno, a segunda defendia o voto restrito, considerando que as mulheres deviam ser educadas para votarem em consciência. Nesta fase, Maria Veleda começa então a delinear novas estratégias para pedir o direito de voto às mulheres, caso da emancipação política ou económica. Faz parte dos Grupo das Treze: este grupo, mais político, combate a superstição e o fanatismo religioso, proclamando Veleda a ciência, já que a “sociedade ideal será aquela em que a mulher levante templos à ciência”. Crítica todos os que se servem da República para satisfazer os seus interesses próprios e discursa contra as incursões monárquicas, defendendo o regime republicano. Escreve e conspira, igualmente, contra a ditadura de Pimenta de Castro. Entre 1915 e 1916 defende a participação de Portugal na I Guerra Mundial e alia-se ao Partido Democrático de Afonso Costa, sendo critica pela Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, e afasta-se da mesma Liga. Fundou, em 1915, a Associação Feminina de Propaganda Democrática, com uma actuação cívica e política para passar à prática os direitos da mulher.




O jornal "Vanguarda" que esgotou duas edições com o artigo de Maria Veleda "A Propósito"


A subscrição de homenagem a Maria Veleda

Com a noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921, Maria Veleda desilude-se com a República. Passa a escrever em jornais e revistas, como “O Século”, “A Pátria”, fundando “A Asa, “O Futuro”, “A Vanguarda Espírita, com comentários políticos e sobre educação, mantendo uma atitude crítica de maior distanciamento, não sem um certo humor. No final, a conferencista ofereceu ao Museu Bernardino Machado o seu livro “Maria Veleda: feminista republicana, escritora e conferencista”. Este livro contém as “Memórias de Maria Veleda”, publicadas no jornal “República “em 1950.





Maria Veleda na Comissão de Homenagem Nacional a Bernardino Machado, em 1907



















terça-feira, 7 de junho de 2011

maria veleda



O IV Ciclo de Conferências “As Mulheres e a I República”, organizado pelo Museu Bernardino Machado e Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, tem como oradora convidada a Professora Natividade Monteiro, que irá proferir a V conferência do mesmo ciclo intitulada “Maria Veleda (1871-1955): feminista republicana, pedagoga e livre-pensadora”. Licenciada em História e Mestra sobre a temática das Mulheres, a Professora Natividade Monteiro é Professora de História e Investigadora de “Faces de Eva-Socinova” da Universidade Nova de Lisboa e do Centro de Estudos das Migrações das Relações Interculturais da Universidade Aberta. É membro dos órgãos sociais da Associação de Professores de História e sócia da Associação Portuguesa de Estudos sobre as Mulheres. A Professora Natividade Monteiro tem trabalhos publicados sobre educação histórica patrimonial, museológica e artística, assim como sobre recursos educativos inovadores, no âmbito das tecnologias da informação e comunicação. No âmbito dos “Estudos sobre as Mulheres” tem publicado livros e artigos e tem participado em Congressos, Seminários, Encontros e Colóquios sobre feminismo, educação e cidadania na I República. Tem igualmente coordenado exposições e ciclos de conferências dedicados a biografias e percursos de mulheres republicanas e feministas. Neste âmbito, destaca-se a obra da Professora Natividade Monteiro “Maria Veleda (1871-1955) (2004) e o catálogo da exposição dedicado a Maria Veleda, em Lisboa, no Museu República e Resistência. Para além da sua colaboração em revistas como “Faces de Eva”, no “Boletim da Associação dos Pupilos do Exército”, ou em obras de co-autoria, a Professora Natividade Monteiro também escreve na imprensa, para a divulgação da cidadania e da participação do feminino na I República, tal como é o caso dos “Ecos de Marafa” (Figueira de Castelo Rodrigo). A V conferência do IV Ciclo de Conferências “As Mulheres e a I República” realiza-se no dia 17 de Junho (Sexta-Feira), pelas 21h30, no Museu Bernardino Machado. A entrada é gratuita e entregar-se-á aos participantes certificados de participação.









sexta-feira, 3 de junho de 2011

bordalo pinheiro em famalicão



A exposição itinerante "Vida e Obra de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905), organizada pelo Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa, vai estar em Vila Nova de Famalicão, mais propriamente no Museu Bernardino Machado, entre 4 de Junho (já a partir de amanhã, portanto) até 31 de Agosto do corrente ano. A exposição, como aqui pretendo mostrar, está dividida em oito painéis temáticos: i) Seu Zé-Povinho, ii) O Dabdy dos Teatros, iii) A Porca da Política, iv) Os Ódios de estimação, v) O Homem dos Jornais, vi) A Loiça das Caldas, vii) Espelho, Espelho Meu..., viii) Museu Rafael Bordalo Pinheiro. A não perder!

























































































terça-feira, 24 de maio de 2011

bordalo pinheiro, o mestre dos mestres




A exposição itinerante “Vida e Obra de Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905)” organizada pelo Museu Bordalo Pinheiro, de Lisboa, vai estar em Vila Nova de Famalicão, mais propriamente no Museu Bernardino Machado, entre 4 de Junho até 31 de Agosto de 2011, sendo um dos objectivos da mesma exposição mostrar a todos os públicos a obra de Bordalo Pinheiro, evidenciando as suas várias actividades: desenho, gravura, pintura e a cerâmica. A estrutura da exposição privilegia a imagem, acompanhando textos de leitura rápida e acessível com títulos apelativos para contextualizar a obra de Rafael Bordalo Pinheiro nos seus mais variados aspectos. A exposição está constituída por oito painéis temáticos. i) Seu Zé Povinho; ii) O Dandy dos Teatros; iii) A Porca da Política; iv) Os Ódios de Estimação; v) O Homem dos Jornais; vi) A Loiça das Caldas; vii) Espelho, Espelho Meu…; viii) Museu Rafael Bordalo Pinheiro. Depois de ter frequentado as Belas-Artes e o Curso Superior de Letras, em Lisboa, surgiu nas lides artísticas no início da década de 70. Terá sido a sua actividade teatral, estreando-se no Teatro Garrett, embora nunca tenha feito a carreira de actor, assim como enquanto deputado na Câmara dos Pares, que descobriu a sua vocação, nas intrigas sociais e políticas dos bastidores. Em 1875 embarcou para o Rio de Janeiro, tendo sido dos raros artistas que se evidenciou na cidade carioca na época. O quotidiano social e político demonstram a sua capacidade criativa. Indiscutivelmente, digno de relevo é o seu Zé-Povinho que surgiu em 1875 nas páginas de A Lanterna Mágica. Neste jornal humorístico, assim como em A Paródia, O António Maria, ou à parte, o seu Álbum de Glórias, o qual atinge uma rara simbologia nacional (aqui caracteriza Camilo Castelo Branco, entre outros), o seu traço caricatural atinge a sua máxima perfeição. Por sugestão de Ramalho Ortigão, criou Bordalo Pinheiro em 1885 a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, na qual criará as famosas decorações em pratos, jarras, bilhas e azulejos. Considerado como um dos maiores caricaturistas e humoristas no Portugal dos finais do século XIX, Bordalo Pinheiro é igualmente considerado como o precursor da banda desenhada e da publicidade artística, assim como do cartaz artístico em Portugal. A exposição, organizada pelo Museu Bordalo Pinheiro, mostra-nos o verdadeiro artista como desenhador, aguarelista, desenhador, ilustrador, o caricaturista social e político, jornalista e o ceramista.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

elzira dantas machado1865-1942



"Franzina, pode apesar disso desenvolver extraordinária actividade nos angustiados dias de 1914 a 1918. À fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e da Associação de Propaganda e Defesa dos Direitos da Mulher se devem várias realizações patrióticas e humanitárias, como - para exemplificar - a Cruzada das Mulheres Portuguesas,a que presidia, Comissão Feminina «Pela Pátria», para fornecimento de roupas e agasalhos aos soldados, a Comissão de Enfermagem de Guerra, a Caixa de Auxílio dos Estidantes Pobres do Sexo Feminino, em que devotadamente a auxiliou a ilustre Escritora D. Emília de Sousa Costa, a Comissão de Assistência às Crianças, a Comissão de Assistência às Mulheres, a iniciativa do Instituto de Reeducação dos Mutilados de Guerra, do Afilahdos de Guerra, e das Bibliotecas para os feridos e doentes dos Hospitais Militares, etc. / Poderia acrescentar outras manifestações do seu nobre espírito. mencionarei, por tê-la seguido com vivo interesse, a sua cooperação nos jornais A Madrugada e a Sementeira, respectivamente, órgãos da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e da Associação de Propaganda e Defesa dos Direitos da Mulher, em que teve o precioso concurso da sua amiga íntima, a eminente escritora D. Ana de Castro Osório..."



Júlio de Lemos - "Sobre o Joelho. Sombra amiga". In Cardeal Saraiva. Ponte de Lima, Ano 44, n.º 1715 (26 Maio 1955).

domingo, 15 de maio de 2011

os amigos de coimbra de bernardino machado


Inserida na actividade pedagógica do Museu Bernardino Machado denominada “Família nos Museus”, o Professor José Machado propôs os contos e a poesia de João Penha, Gonçalves Crespo e de Alberto Braga para animar a tarde familiar no Museu, respectivamente no dia 14 de Maio, pelas 15h00. Apresentado pelo Professor Norberto Cunha, coordenador científico do Museu, o Professor José Machado é um erudito da cultura popular, colocando o tema em aberto da seguinte forma: as histórias são como o buraco da fechadura. Quando a história, e as histórias, não têm buraco de fechadura, acabam por não terem graça. Uma história é como quando se abre uma porta, na medida em que as histórias vivem-se e depois contam-se.



Aplicadas à contemporaneidade, surgem histórias à volta da beleza e do feio e dos seus exageros (as crianças gostaram particularmente desta, a menina que era tão feia, tão feia, tão feia e que depois se tornou bela, por encantamento das fadas!), ou então sobre a questão do tempo, surgindo a questão moral de saber esperar enquanto virtude. Para o Professor José Machado o Museu, e os Museus, surgem como lugar de histórias para a memória. Desta forma, fomos na temática proposta para este ano se comemorar a Noite dos Museus pelo ICOM, com a temática “Museus e Memória”.













júlio machado vaz culto privado

Dr. Artur Sá da Costa na apresentação do Professor, escritor e sexólogo Júlio Machado Vaz




Apresentado pelo Dr. Artur Sá da Costa em representação do Vereador da Cultura e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, que não deixou de estar presente no final da sessão para cumprimentar o orador, Júlio Machado Vaz proferiu na “Noite dos Museus” uma conversa informal intitulada “Culto Privado”. Não só prestou uma homenagem ao bisavô, Bernardino Machado, o qual na família gera um “arco-íris de sentimentos” pelas imagens que são visionadas, como igualmente prestou a mesma homenagem aos pais. Evocando a temática da recordação, o pai de Júlio Machado Vaz surge como o catalisador da mesma conversa informal, assim como a mãe, e sempre como pano de fundo Bernardino Machado. Neste caso, a imagem do pai está bem viva, na medida em que acabou por organizar o espólio do avô que catalogava e organizava, dando informações a investigadores e a académicos, no sonho de um futuro museu. Recorde-se, aliás, que é este mesmo espólio a base fundadora do Museu Bernardino Machado, doado por seu pai à Câmara Municipal de V. N. de Famalicão. Considerando Elzira Machado Rosa a herdeira espiritual do mesmo espólio, na feitura do mesmo (recorde-se que Elzira Machado Rosa publicou “Bernardino Machado: protagonista da mudança”, 1991, e “A Educação Feminina na Obra Pedagógica de Bernardino Machado”, 1999, ambos os livros editados pela autarquia famalicense), a conversa arrastou-se pela antropologia médica e pelos valores humanos, muitas vezes esquecidos pelos próprios médicos.







Júlio Machado Vaz



Aqui, destaca-se a multidisplinariedade dos saberes de Bernardino Machado, relativamente ao saber de hoje, mais especializado, um dos problemas da sociedade contemporânea, já que a especialização desumaniza. Para Júlio Machado Vaz, a sociedade de hoje que não comporta já os “ismos”, uma sociedade laicizada, a saúde e a medicina surgem como pano de fundo moral, existindo aqui, contudo, algo de paradoxal, a própria desumanização da saúde e da própria medicina. Se contra factos não há argumentos, e aqui diz que o bisavô Bernardino Machado gostaria de ouvir isto, é que há interpretações.





Dr. Artur Sá da Costa, Dr. Júlio Machado Vaz e o Vereador da Cultura e Vice-Presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, Dr. Paulo Cunha




cidadania feminina republicana

Professor João Esteves e o Professor Norberto Cunha



O convidado da IV conferência do IV Ciclo de Conferências denominado “As Mulheres e a I República”, foi o Professor e investigador João Esteves, com a conferência intitulada “Cidadãs Republicanas”. O Professor Norberto Cunha, coordenador científico do Museu Bernardino Machado, e em representação do Vereador da Cultura e Vice-Presidente da Câmara Municipal de V. N. de Famalicão, para além da respectiva apresentação do conferencista, anunciou que o Professor João Esteves terá a seu cargo, numa edição da autarquia famalicense com o Museu Bernardino Machado, a publicação da correspondência das mulheres com Bernardino Machado. O Professor João Esteves considerando Bernardino Machado uma figura central relativamente às mulheres, o Museu tem um espólio invejável, já que muitas delas, caso de Ana de Castro Osório, não só tinham relações de amizade com Bernardino Machado e Elzira Dantas, como estes eram amigos de confidências únicas.





Começou a sua conferência por anunciar que a actividade política e de cidadania por parte das mulheres não começou com a República, iniciando tal actividade cívica muito antes. As mulheres, na viragem do século, começam a lutar pelos seus direitos cívicos e de cidadãs, casos de Beatriz Pinheiro, Maria Veleda, Ana de Castro Osório, entre outras republicanas, desde as libertárias e pacifistas, republicanas e feministas e até monárquicas. Se em 1906 começam a fundar os grupos pacifistas e feministas, caso da Liga Portuguesa da Paz, ou o Núcleo Português das Feministas em 1907. Mas já antes, Ana de Castro Osório, numa carta dirigida a Bernardino Machado, pretendia já criar e fundar uma liga feminista. A partir de 1908 republicanas e monárquicas diferenciam-se devido ao regicídio, existindo então uma republicanização feminista. Em 1908 surge a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, apadrinhada por Bernardino Machado, António José de Almeida e Magalhães Lima, tendo mais de 1000 sócias inscritas, num conjunto de mulheres urbanas, intelectuais ou letradas.




O Professor João Esteves na sua intervenção


É a partir desta data, com o beneplácito de Bernardino Machado, que as mulheres começam a participar nos comícios, a partir do momento em que começam a secretariar, pretendendo, ao mesmo tempo, desmarcar-se e tendo mais visibilidade. É o caso de Maria Veleda, a qual, num discurso de 1908, a 9 de Fevereiro, num panfleto publicado, anuncia que a dor da Rainha não é mais do que a dor das outras mães quando perdem um filho ou um marido e diz que “morreu um Rei: antes um Rei que um homem”! Desta forma, defende indirectamente o regicídio. E se antes do regicídio o termo feminismo era uma constante, depois ele deixa de aparecer na imprensa, na qual não há polémicas estéris, mas temos polémicas com conteúdos. Não deixa de ser curioso que num inquérito que a imprensa promove para que as mulheres escolhessem um republicano, a escolha, que recai em António José de Almeida, a escolha não deixe de ser errada; e é uma escolha errada na medida me que, enquanto Ministro do Interior, será o homem que não irá permitir o voto das mulheres! Se a partir de 19010 se tornam claramente feministas e republicanas, as mulheres encontram directamente ligadas à Lei do Divórcio. Desta forma, as mulheres estavam perfeitamente integradas quando se dá a República enquanto cidadãs.




Ganham a cidadania, numa intensa actividade no antes e pós a implantação da República. Quando começam a aparecer publicamente, estando meramente presentes, e, depois, discursando, começam a ter visibilidade. Bernardino Machado dá-lhes referência. O Professor João Esteves salienta o voto de Carolina Beatriz Ângelo, que teve uma repercussão admirável na imprensa estrangeira. E, se numa primeira fase, caso de Maria Veleda, acusa os republicanos de serem uns vira-casacas, as mulheres em 1915 não de actuar para criticar activamente a ditadura de Pimenta de Castro: as mulheres vão participando, mas vão sendo cada vez menos. O que vai unir as mulheres feministas e republicanas nesta fase, vai ser a I Guerra Mundial, a qual vai permitir a fundação e a criação, com Elzira Dantas, mulher de Bernardino Machado, então Presidente da República, da Cruzada das Mulheres Portuguesas, a qual terá delegações por todo o país, não tendo só republicanas na sua direcção.






Os anos 20 vão trazer um outro género de mulheres, já saída das faculdades, e a imprensa deixa de tratar as mulheres pelos nomes próprios, entrando a ditadura militar de 28 de Maio de 1926 com a exclusão então das mulheres na vida pública. O professor José Esteves termina a sua conferência anunciando que muitas questões que os investigadores contêm irá passar pelo Museu Bernardino Machado, precisamente pela relação de amizade e de confidência que Machado tinha com muitas mulheres. É o caso da ruptura de Adelaide cadete com Ana de Castro Osório.





O Dr. Manuel Sá Marques, sempre presente no Museu Bernardino Machado e sempre atento, intervindo




O Dr. Manuel Sá Marques, neto de Bernardino Machado e o professor João Esteves